domingo, 6 de maio de 2012

A beleza das heroínas de Jane Austen (parte 10)

"A beleza de Mary Bennet"
Talulah Riley como Mary Bennet 
O&P - 2005
    "Alguém" com certeza irá perguntar o que Mary Bennet está fazendo nesta lista visto que não é uma heroína e muito menos bonita. Mas quem foi que disse isso???     
     Para mim, "nossa amiga" Jane Austen, com toda ironia que lhe é peculiar, mostrou em Mary a moça "quase perfeita" para ser uma heroína e conseguir excelente casamento, afinal o que faltava nela se tinha nos livros sua inspiração para tudo no cotidiano, sabia apaziguar os humores das irmãs, dava lições de moral, tocava piano, era recatada, estudava muito e se não fazia melhor (como no caso, cantar) é porque não possuía um bom professor, pois é sabido que até os "desafinados" com bom estudo e técnica são capazes de cantar relativamente bem. O que havia de errado então? Será que Mary Bennet era feia? 
Tessa Peake-Jones como Mary - O&P 1980
     JA não diz que ela era feia, aliás seria muita falta de sorte ser a única "feiosa" da família. Seria "burrinha"? Ela era extremamente aplicada aos estudos e sabia diversas citações de livros, por certo inteligência não lhe faltava, embora o Sr. Bennet dizia que suas filhas eram as moças mais tolas da Inglaterra. 
Ruby Bentall como Mary - "Lost in Austen"
    Mary tinha horror a ser uma moça tola, tanto que  na maioria das vezes, se mostrava avessa a bailes, não falava dos homens e repreendia as irmãs mais novas que eram muito "acesas" com os rapazes. Mas e então? Qual era o problema de Mary??? 
  O traço mais relevante na obra "Orgulho e Preconceito" é o fato de Mary ser exatamente o oposto da heroína e irmã "Elizabeth"
    Mary, fazia de tudo para ser o centro das atenções mostrando e se orgulhando de ter excelentes qualidades e na verdade o "centro das atenções", até mesmo de quem lê, é Elizabeth, que não está muito preocupada em agradar esse ou aquele, não que ela fosse mal educada, simplesmente não tinha dificuldades em mostrar seus próprios pensamentos, enquanto Mary, citava as "máximas" dos livros que lia, querendo assim mostrar que seus pensamentos e padrões estavam a altura dos grandes pensadores e poetas, tornava-se "sonsa":...Mary não tinha talento, nem gosto. Embora a vaidade lhe tivesse dado perseverança, dera-lhe igualmente um ar pedante de maneiras convencidas, coisa suficiente para obscurecer triunfos maiores do que aqueles que era capaz de alcançar. Embora não tocasse tão bem, Elizabeth agradou muito mais, graças à sua naturalidade; e Mary, depois de um longo concerto, pôde considerar-se feliz por alcançar alguns elogios. (O&P -cap.6)
Lucy Briers como Mary - O&P 1995
   O que Elizabeth tinha de natural na inteligência, Mary tinha de artificial, a esperteza que Elizabeth tinha em julgar, refletir e responder algo, Mary tinha em repetir o que fora dito por outros e muitas vezes isso tinha um caráter arrogante, cansativo, esnobe, resumindo, Mary muitas vezes se passava pelo que hoje chamamos de "chata". 
     Esse extremo com toda certeza está focado no comportamento de Mary para chamar ainda mais a atenção às qualidades de Lizzie, qualidades estas, que como sabemos também são típicas na autora, que era decidida, firme em suas opiniões e convicções.
Ruby Bendall como Mary ao piano- "Lost in Austen"
     O comportamento de Mary faz ainda uma ironia às convenções da época em que o padrão de perfeição era a mulher cheia de predicados e de preferência submissa, Mary tentava ser o protótipo de tal  mulher e "se achava", enquanto Lizzie, não tocava bem o piano, não desenhava, não tinha aquele andar elegante da Srta. Bingley, não ligava muito para convenções e se casou com o mais cobiçado partido das obras de JA. Lizzie possuía a maior qualidade, a autenticidade, o caráter não fingido, e essa é a essência de "Orgulho e Preconceito", onde Mr. Darcy, tido como o orgulhoso, foi  preconceituoso ao consentir que uma mulher deveria ter muitas qualidades, ser "prendada" para alcançar algum mérito vindo dele:...mas estou longe de concordar com você no seu julgamento sobre as moças em geral. Apesar do grande número das minhas relações, não posso gabar-me de conhecer mais de meia dúzia de moças realmente prendadas. (Mr.Darcy)
— Nem eu — disse Miss Bingley.
— Nesse caso — observou Elizabeth — deve exigir muitas qualidades para o seu ideal de mulher perfeita.

— De fato, exijo muitas qualidades.

— Oh, certamente — exclamou a sua fiel aliada. 
— Nenhuma mulher pode ser realmente considerada completa se não se elevar muito acima da média. Uma mulher deve conhecer bem a música, deve saber cantar, desenhar, dançar e falar as línguas modernas,a fim de merecer esse qualificativo, e além disso, para não o merecer senão pela metade, é preciso que possua um certo quê na maneira de andar, no tom da voz e no modo de exprimir-se.

— Sim, deve possuir tudo isso — acrescentou Darcy.  — E acrescentar ainda alguma coisa mais substancial: o desenvolvimento do espírito pela leitura intensa.
— Já não me espanto de que conheça apenas seis mulheres completas, espanto-me é de que conheça alguma.
— Julga com tanta severidade o seu sexo, que duvida da possibilidade de tudo isto?
— Eu nunca vi tal mulher. Nunca vi tanta capacidade de aplicação, gosto e elegância reunidas numa só pessoa. (O&P - cap.8)

     E Lizzie? Não foram as qualidades e prendas "comuns" que ele viu nela, caso contrário teria se interessado pela Srta. Bingley ou mesmo Mary. Lizzie (juntamente com  Jane Austen) estava segura em sua opinião quanto à perfeição na mulher, mas a pobre Mary (digo pobre, porque tenho certa "dó" dela) que afinal só queria ser boa moça, era ridicularizada. As irmãs mais velhas tinham outras pretensões e outros tipos de personalidade e as mais novas eram exatamente o que Mary não queria ser: fútil. 
    Mas apesar de todos esses "probleminhas" ainda gosto de Mary, já conheci pessoas assim e que no fundo, só querem ser notadas e admiradas. 
    Mary Bennet de O&P 1995 foi bem fiel ao livro,  mas realmente ela é a mais "chatinha". A de 1980, também é agradável mas gostei mais da Mary de 2005, ela me pareceu meio que desamparada e incompreendida.
   Penso que Mary Bennet queria agradar à sociedade, ao pai, à mãe e porque não dizer também aos homens, caso contrário porque tantos esforços em alcançar tantos predicados? 
     Um fato que considero muuuiiito relevante e que o diretor Joe Wright (O&P 2005) coloca em seu comentário sobre o filme, é o fato de que Mary tinha gosto que Mr. Collins lhe fizesse uma proposta de casamento, nada mais natural, visto que as duas irmãs mais velhas estavam fora de cogitação. Ela com certeza aceitaria a proposta, mesmo sem qualquer sentimento por ele (se é que não tinha algum). Agradaria a mãe, garantindo a propriedade da família, agiria como uma mulher respeitável, e combinariam muito bem de gênio. Observem o leve "sorrisinho" para ele e a postura de Mary enquanto as outras riem por ele ter sido recusado. Era quase um alerta: "Ei, eu estou aqui e aceito me casar!" 


   Puxa, Mary, não foi desta vez...Será que por fim, Mary ficou pra tia?
    Tudo se resume em: "Quando alguém quer agradar a todos, acaba não agradando a ninguém, nem a si mesmo."
fotos e video:
alexaadams.blogspot.com 
marspeach.woedpress.com
hotflick.net 
movieclips.com by youtube



Outros tópicos desta série:

terça-feira, 1 de maio de 2012

A beleza das heroínas de Jane Austen (parte 9)

"A beleza de Catherine Morland"
     Catherine Morland é a típica adolescente. Moleca, sonhadora, sonhadora, extremamente sonhadora, nas nuvens. Sonha ser uma das heroínas dos romances góticos que lê, mas está longe de ser como uma delas. 
    Jane Austen nos mostra logo no início do livro, que Catherine era quase uma anti-heroína e que em nada fazia lembrar as características das protagonistas dos romances que ela lia. Não tinha nada que pudesse fazer dela alguém assim:
..."Ninguém que já tinha visto Catherine Morland em sua infância teria suposto que ela nasceu para ser uma heroína. Sua situação na vida, a personalidade de seu pai e sua mãe, sua própria pessoa e disposição, eram todos igualmente contra ela."(N.A.Cap. 1). Isso é, nenhum tipo de atrativo extra, seja este de personalidade ou até mesmo de beleza:
"...ela tinha um corpo magro e desageitado, uma pele pálida, sem cor, cabelo negro e escorrido e forte traços ..."
   Catherine Morland, durante o romance, passa por uma transformação de moça-criança para moça-mulher. Antes, vivia despojada, rodeada de crianças inocentes, cercada do amor da família, envolvida em brincadeiras, não ligava para bonecas, era desatenta ao cotidiano e sonhava com os romances de mistério que lia."...e nada menos propício para o heroísmo, era sua personalidade...que estranha, inexplicável personalidade...mas dos quinze aos dezessete anos, estivera treinando para ser uma heroína".      
Felicity Jones, como Catherine Morland
"A abadia de Northanger" 2007
    Apresentada à sociedade de Bath, já se preocupava com as coisas de uma mulher: em se apresentar bem, se vestir para agradar alguém, com outras conversas e interesses, principalmente em se tratando de Henry  Tilney, inteligente e perspicaz.
"...mas quando uma jovem moça tem que ser uma heroína, a perversidade de quarenta famílias dos arredores não poderá impedi-la. Algo deverá acontecer para que um herói seja lançado em seu caminho." (N.A.)

   Como todo adolescente, Catherine dá uma importância muito grande a certos fatos corriqueiros, muitas vezes banais para alguém mais adulto e se envolve em sua imaginação fértil e cheia de romantismo. A Srta. Morland está descobrindo o mundo, se afirmando como mulher, mas isso só lhe é concedido quando o contexto de sua vida se transforma e ela se vê frente a uma sociedade que ela não conhecia. Novos amigos, um rapaz que lhe encanta, mistérios...e ela tenta trazer os livros que lê para a realidade que vive.  


    Catherine era uma moça muito sensível e inteligente, raramente se enganava quanto ao caráter das pessoas que a rodeavam, (com excessão de Isabella) tanto que John Thorpe, nunca lhe convenceu de seu caráter duvidoso. 
     Acredito até, em um duplo sentido quando o Sr. Morland diz no início do livro que Catherine estava crescendo e era quase bonitapoderia ter dito que ela não era uma mocinha tão bonita por falta realmente de mais beleza ou, que ela estava se lapidando e estava quase bonita, como uma rosa ainda em botão.
     Essa segunda opção acredito ser a que JA quis nos passar. Depois de seu convívio com Tilney, certamente sua beleza floresceu, JA a transforma na heroína que Catherine tanto queria ser, reforçando que ela cometia falhas como alguém comum (quando fez enorme confusão em visita de Northanger Abbey) ironizando a heroína perfeita dos romances da época, que sempre tinham o mesmo clichê romântico da "mocinha perfeita", ela é uma personagem divertida, que comete erros mas aprende com eles, percebe aos poucos que o que lia nos romances estavam longe de ser realidade.

Katharine Schlesinger, como Catherine Morland
"A abadia de Northanger" 1986
     Katharine Schlesinger, a atriz que interpretou o papel de Catherine Morland na versão de 1986, não me conquistou como tal. Felicity Jones, na versão de 2007, me pareceu mais fiel ao livro. Seu rostinho ao mesmo tempo ingênuo de menina-moça e belo como uma mulher em ascensão, embora no início JA nos fala de uma Catherine sem atrativos, acredito que fica subentendido que durante o romance ela se torna uma real heroína, passando de moça-criança para moça-mulher, antes, sonha com a descoberta da sociedade e em encontrar o amor, depois, conquista o coração de  Henry Tilney, um rapaz inteligente, digno de ser o herói do romance. 
  "Northanger Abbey" traz uma heroína muito singular. Uma mocinha ingenua, desqualificada para a protagonista que com um pouco de vivência e esmero, se transforma numa bonita moça. 
     Depois de conhecer a obra, alguém pode dizer que Catherine Morland não foi uma bela heroína? 
foto:janeaustenpt.blogs.sapo.pt



Outros tópicos desta série:

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A beleza das heroínas de Jane Austen (parte 8)

"A beleza de Fanny Price"
   

"...parecia ter tanto medo de ser notada e elogiada como as outras mulheres têm medo de ser esquecidas." (Mansfield Park - cap. 21)

    Fanny Price é a mais polêmica das heroínas de Jane Austen, muitos até mesmo contestam esse título a ela. 
 Tadinha... Vejo Fanny como uma menina demasiadamente sofrida, tímida, introspectiva, sem coragem pra discordar de nada, (não que ela não tivesse sua maneira de ver a vida) até mesmo um tanto depressiva.
  Muitos leitores se irritam com o comportamento de Fanny e acham que um romance longo como "Mansfield Park" não merece uma heroína sem sal e sem açúcar como ela. Mas afinal: o que Jane Austen nos mostra com Fanny?
    Acredito que no quesito "beleza", Fanny  era  uma moça bonita, mas sua condição em casa dos Bertram, abafava sua beleza, até mesmo a interior. Não tinha muitas vaidades e sua timidez não deixava que ela fosse diferente, aliás, nem a timidez, nem Tia Norris, que fazia com que Fanny sempre lembrasse "onde era seu lugar", deixando claro que ela era inferior aos outros em seu redor. 


— Seu tio acha você muito bonita, Fanny — essa é que é a verdade... qualquer pessoa, menos você, havia de se ressentir por não ter sido achada muito bonita há mais tempo; mas a verdade é que seu tio até agora nunca a tinha admirado — e agora ele a admira. Sua pele está tão bonita! E você ganhou tanto em aspecto! E o seu porte — não, Fanny, não vire o rosto — é apenas um tio. Se você não pode suportar a admiração de um tio, que será de você? Você deve realmente ir se acostumando com a ideia de ser admirada. Deve se habituar a ser uma mulher bonita. 

— Oh! Não fale assim, não fale assim, exclamava Fanny, perturbada por sentimentos que ele não poderia adivinhar... (Edmund e Fanny - Mansfield Park)
Frances O'Connor, como Fanny, MP 1999

     Fanny Price, ao meu ver, é o oposto de Emma Woodhouse: enquanto Emma é rica, bonita, de excelente senso de humor, tem liberdade pra dizer o que quer, é admirada por todos e tem elevada auto-estima, Fanny é pobre, reservada, séria, não tem tempo para pensar em si, mostra muito pouco o que sente, tem medo de tudo o que fala, não tem liberdade no que diz, é humilhada e vítima de preconceitos e por conseguinte, tem sua auto-estima lá em baixo.
Sylvestra Le Touzel, como Fanny em MP 1983
     Jane Austen não nos mostra Fanny como  "Cinderela", a bela moça transformada em criada, Fanny era alguém comum, com atrativos que todos nós temos, uns mais, outros menos. Como é que a "pobrezinha" poderia tentar ser bonita, com as primas Maria e Julia consideradas muito melhores e com Mary Crawford, quase uma diva, admirada pelo primo que ela amava? Era batalha perdida.

     Aliás, esse tipo de "batalha" é bem semelhante em "Esposas e Filhas" (Elizabeth Gaskell), onde Molly observa sem ação, Cynthia, sua irmã (filha de sua madrasta), bela e devastadora de corações ficar noiva de Roger, a quem ela amava. Quieta e resignada, nada faz para que Roger perceba que Cynthia não será uma esposa adequada. Assim como Edmund, Roger no final, reconhece seu amor por Molly.
Molly e Roger
     Acho que qualquer um de nós na situação de vida de Fanny não conseguiria ser diferente. Apesar de tudo, ela sempre se mostra calma e lembra muito Anne Elliot, resignada, preocupada com os outros, de lado, desprezada, mas com belos sentimentos e um bom coração.
     Quanto à aparência física, imagino Fanny com os cabelos escuros como na versão de 1999 (embora não tenha gostado dessa versão; foge da obra verdadeira e é muito apelativa pra Jane Austen). Já a Fanny loira da versão de 2007 é um horror. Pra mim, nada a ver aquele cabelo com cara de descolorido e  a atriz Billie Piper não caiu bem no papel, sem contar que a versão também viaja...não é fiel à obra. 
Billie Piper como Fanny - MP 2007


     Acho que apesar de  ter os cabelos mais claros, a melhor Fanny é a de 1983, achei ela com todo esse aspecto de pessoa que faz tudo pra agradar e não consegue, sem contar que é a versão mais fiel ao livro.
    Bom, contudo, apesar de alguns até se irritarem pelo fato de que Fanny tenha se saído bem no final, acho que ela mereceu ter um final feliz, depois que quase todos, cheios de dinheiro e hipocrisia estavam quase desmoronados , Fanny ainda se conservava ali, com sua "tímida" beleza, que poucos conseguiram ver, além de Edmund Bertram.
fotos: serieuk.blogspot.com
         depoisdotrampo.com.br



Outros tópicos desta série:


quinta-feira, 19 de abril de 2012

A beleza das heroínas de Jane Austen (parte 7)

"A beleza de Emma Woodhouse"
Romola Garai como Emma (loira) -2009
     Emma Woodhouse é tida como uma moça cheia de virtudes e beleza, nascida em berço de ouro. 
     De fato ela usa as melhores roupas, vive em uma bela casa, tem muitos amigos e pode se dar ao luxo de dizer o que quiser quando quiser pois não precisa tentar impressionar para conseguir aprovação, ou amigos ou um marido, aliás, Emma não tinha intenção de se casar. Pra que? 
      No período em que Jane Austen escreveu seus romances, o casamento para as mulheres tinha um significado diferente dos nossos dias. Hoje, uma mulher se casa porque encontrou "seu príncipe", quer ter seu lar, sua família, é livre em suas atitudes, pode trabalhar e ser financeiramente independente e mesmo assim escolhe se casar pois quer dividir seus dias com quem ama. Há duzentos anos atrás na sociedade inglesa, o casamento por amor era literalmente raro, a não ser entre os menos favorecidos, pois esses não tinham nada a perder nem a ganhar é como se diz, "juntavam as trouxas", mas para as mulheres de uma educação mais esmerada, como a maioria das heroínas de JA (e a própria autora), o casamento era como passar no vestibular; uma briga acirrada para a vaga de um pretendente e extremamente necessário para garantira tranquilidade no futuro.

     Emma, mesmo vivendo nesse contexto se mostra tranquila em relação a isso, pois é rica e mesmo que pensasse em se casar sabia que teria pretendentes a escolher, isso nos é mostrado ao longo do romance, onde a segurança que ela sente pela sua beleza e posição é tão grande que suas atitudes e palavras muitas vezes ofendem os que estão ao seu redor, por ela se sentir segura do que fala e convicta com a escolha dos pares amorosos que faz para os outros, achando que possui até uma certa intuição; vê sua opinião como irrepreensível.
Gwyneth Paltrow como Emma (loira) 1996
     O amigo da família Mr. Knightly, é o único que tenta fazer com  que Emma perceba seus exageros e erros em relação às pessoas. A atitude de Mr Knightly para com Emma é demais parecida com a de Elizabeth para com Mr. Darcy e é extrememante interessante como alguém acostumado a ser "paparicado", mimado e não contrariado se encanta com aquele que  lhe mostra seus erros e imperfeições! No primeiro caso, Emma reconhece que tem seus limites e que não conseguia enxergar um palmo diante do nariz, visto que convivia com Mr. Knightly e não percebia o que sentia por ele tentando empurra-lo à outra e no segundo Lizzie, que não tinha intenção alguma de ter Mr. Darcy como marido, lhe mostrou que existiam pessoas encantadoras fora da roda em que ele vivia.
Kete Beckinsale como Emma (morena) 1996/1997
     Afinal? Como era Emma Woodhouse? Ruiva, loura, morena... (eu penso em Emma loira mas gostei bastante da interpretação de Kate Beckinsale), o certo  é, que  seu perfil exato gira em torno de seu caráter e de sua riqueza, mas a conclusão é de Emma tinha uma auto-estima elevada pela sua posição social e isso fazia dela uma moça segura de sua beleza, mas coloco uma interrogação: será essa beleza seria assim tão aclamada e ela tão assediada, caso ela fosse menos favorecida? É...não é muito diferente do que vivenciamos hoje...
foto:janitesonthejames.blogspot.com



Outros tópicos desta série:

domingo, 15 de abril de 2012

A beleza das heroínas de Jane Austen (parte 6)

"A beleza de Anne Elliot"
     Assim como Marianne Dashwood após uma decepção amorosa, Anne Elliot aparece o livro todo com sua beleza apagada. É diferente das outras heroínas de Jane Austen; já está com 27 anos e é considerada uma "solteirona" para a época em que se passa o romance. O semblante sempre triste e introspectivo"...havia perdido o frescor da juventude...". A impressão que se tem é que toda a sua vivacidade, alegria e beleza da juventude estão dentro da caixinha que guarda as cartas do Capitão Wentworth. 
      É quase um baú de tesouros, que quando aberto faz Anne voltar no tempo, chorar e se arrepender, arrepender e arrepender... tornando-a ainda mais abatida e solitária.
     Ao contrário  da   irmã mais velha, Elizabeth Elliot, vaidosa,   orgulhosa e dona de si, Anne é simples em sua vestimenta,  opiniões e atitudes (ao meu parecer, não tão simplória quanto o figurino de Anne de 2007-BBC). É sensível, amável, extremamente responsável, o que lhe  custou  renunciar  ao  seu  amor  e noivado para atender um  conselho "amigo"  de  Lady  Russell, que  queria  evitar  que ela fizesse um casamento mal estruturado,  pois   Frederick  não  possuía  nenhuma expectativa para o futuro e nem fortuna e ela era filha de um "baronete" (a propósito, título que na realidade não  faz  parte  da   realeza).  Anne,  mesmo  amando Frederick,  atendeu   a  Lady   Russell  (que  tinha  em grande   conceito   a   posição   social,   conexões    e dinheiro),  achando  que  o  rompimento  seria melhor para ela.
     Anne tem em seu caráter uma mistura de Marianne e Elinor. Romântica, sonhadora, fiel ao seu coração e ao mesmo tempo cautelosa, esperançosa e muito racional. 
     Como Elinor, não procurava oportunidades para realizar seus sonhos, esperava que o destino os trouxesse em suas mãos.  
     O fato de ter sido persuadida a não se casar com Frederick Wentworth aos 19 anos, de forma alguma revela que Anne tinha um caráter fraco, falta de firmeza ou personalidade, como ele muitas vezes a julgou, pelo contrário, ela era muito inteligente e responsável e essa maturidade fez com que, por ser ainda muito jovem, aceitasse o conselho de Lady Russell, que tinha como grande amiga e confidente. 
Sally Hawkins como Anne Elliot - Persuasão 2007
     Depois de passados 8 anos, o destino trouxe seu amor para perto dela novamente, agora em vários ângulos diferentes: Frederick era mais velho e rico, via Anne como fraca de caráter, um péssimo defeito para alguém que como ele era decidido, firme e ambicioso; havia ainda a mágoa do abandono embora ainda a amasse. 

“Ela o vira. Eles se encontraram. Estiveram mais uma vez na mesma sala.” (Persuasão)

Amanda Root como Anne Elliot - Persuasão 1995
     Por outro lado, Anne já perdera o florescer de sua beleza, pois tinha já 27 anos (idade já em declínio da juventude para início do século XIX, quando as moças se casavam muito jovens; aos 15 já eram apresentadas à sociedade em busca de um pretendente) e o receio de que Frederick, um homem  inteligente, firme, de boa aparência e rico, jamais iria lhe perdoar ou amar novamente.


“Nunca houve dois corações mais abertos, nem gostos mais semelhantes ou sentimentos mais em sintonia!”
(Persuasão)

    Um pequeno parenteses: A maturidade faz também com que certos aspectos da personalidade se tornem mais claros e o que muitas vezes é um defeito, no futuro pode significar uma qualidade e vice-versa. 
     Uma criança ou adolescente, muitas vezes visto como teimoso, pode no futuro provar que seu caráter não era esse e sim de alguém persistente e isso é uma qualidade e não um grave defeito, ao contrário, outro que só sabe fazer o que lhe foi mandado e tido como bonzinho e obediente, poderá ter mais tarde um caráter demasiado passivo e tímido, alguém sem iniciativa pra nada e dependente. Nossas atitudes e traços de personalidade nunca podem ser obsessivos, tudo dentro de um contexto, cada qual na sua hora e no momento certo; são sempre "bons servos e maus senhores", tudo é cabível desde que sabemos dominá-los e controlá-los.
Ann Firbank como Anne Elliot - Persuasão 1971
     Foi o que aconteceu com Frederick Wentworth: Louisa Musgrove, que parecia o oposto de Anne, uma moça alegre, centro das atenções, bonita, confiante e que parecia ter uma excelente firmeza de caráter e saber o que queria, quando caiu em Lyme, demonstrou ser uma pessoa obstinada e infantil, não ouviu ninguém, não mediu consequências, e fez o que estava determinada a fazer, sofrendo um sério acidente e Anne, preocupada com a família, quieta e tão mal julgada provou para ele sua firmeza em suas atitudes, sua maturidade, juízo e a constância de seu amor. Seu encanto interior superou a exterior.
     F. Wentworth, reconheceu que a beleza de Anne era extraordinária! Que não existia ninguém tão doce e que jamais amaria alguém como ela. Partiu então em busca de seu feliz destino, o mesmo destino que Anne em sua paciência e resignação, esperava chegar em suas mãos.

...I am half agony, half hope...unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant...a word, a look, will be enough to decide whether I enter your father's house this
evening or never."




(...Eu sou metade agonia, metade esperança... Eu posso ter sido injusto, fraco e ressentido, mas nunca inconstante...uma palavra, um olhar, será suficiente para que eu decida entrar em casa de seu pai esta noite ou nunca.”)

F. Wentworth
   (Persuasão)
Outros tópicos desta série: