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quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Persuasão" - A música como forma de aproximação nas obras de Jane Austen - parte 2


"...Na música, habituara-se a sentir-se só no mundo..."

     Quando leio essa frase, é claro que não levo "ao pé da letra"; de forma alguma a música lhe traria solidão, intendo que Anne, uma moça de personalidade muito introspectiva e observadora, tinha na música sua companhia. Sendo assim, enquanto tocava, "conversava" com o piano e consigo mesma; poderia escolher o repertório que mais lhe agradava e convinha de acordo com seus sentimentos e pensamentos do momento e não precisaria de mais ninguém. Isso tornou-se um hábito em sua vida onde a única confidente era Lady Russell. 
     Muitos conhecidos, mas amigos escassos!

   Na obra "Persuasão", há várias passagens onde a música aparece como tema: desde a companhia para a solidão, para alegrar quem está triste, animar os serões, para um compromisso de gala ou para um encontro.    
    Na casa dos Musgrove,  Louise e Henrietta tocavam harpa (instrumento também muito popular na época, embora não tanto quanto o piano), mas em uma época onde não haviam gravações, era muito raro uma casa onde não houvesse pelo menos um músico, independente do instrumento escolhido. 
     Sem música não havia vida social naquela época.
    É bem interessante perceber tal detalhe: a música era primordial na vida das pessoas!


A música como união na casa dos Musgrove
   Assim, dirigiram-se à Casa Grande, onde se sentaram durante meia hora na antiquada sala quadrada com um tapete pequeno e o chão brilhante, a que as filhas da casa estavam, pouco a pouco, a dar um ar de confusão com um piano, uma harpa, floreiras e mesinhas colocadas por todo o lado.(pág. 20)


Anne, era melhor musicista que as meninas Musgrove
     ...Ela tocava bastante melhor do que qualquer das meninas Musgrove; mas, não tendo voz, não sabendo tocar harpa e não possuindo uns pais babados que a escutassem, deliciados, raramente lhe pediam que tocasse e quando o faziam, ela sabia que era só por delicadeza ou para permitir que as outras descansassem. (pág. 23)

A música, companheira de Anne
...Ela sabia que, quando tocava, dava prazer apenas a si própria; mas esta não era uma sensação nova: com exceção de um breve período da sua vida, desde os 14 anos, desde que perdera a sua querida mãe, ela não conhecia a felicidade de ser escutada ou encorajada por uma apreciação justa ou um verdadeiro bom gosto. (pág.23)


Anne como pianista, vista com indiferença
...a afetuosa parcialidade do Sr. e da Sra. Musgrove em relação à execução das filhas e a sua total indiferença pela de qualquer outra pessoa causavam-lhe muito mais satisfação por causa delas do que tristeza por si própria. (pág. 23)

A música era convidada de honra nas reuniões em Upercross

...Por vezes, vinham juntar-se outras pessoas ao grupo reunido na Casa Grande. A vizinhança não era numerosa, mas os Musgrove eram visitados por toda a gente e davam mais jantares e tinham mais visitas, convidadas ou ocasionais, do que qualquer outra família. Eles eram muito mais conhecidos e estimados. As meninas adoravam dançar, e os serões terminavam, ocasionalmente, com um pequeno baile improvisado. Havia uma família de primos a pouca distância de Uppercross, em circunstâncias menos abastadas, que estavam dependentes dos Musgrove para todas as suas diversões; eles podiam aparecer em qualquer altura, ajudar a tocar qualquer coisa ou dançar em qualquer lado...(pág.23/24)

A prontidão de Anne em tocar para agradar, chama a atenção

...Anne, que preferia o trabalho de músico a uma ocupação mais ativa, tocava músicas populares durante horas seguidas; uma amabilidade que, mais do que qualquer outra coisa, chamou a atenção do Sr. e da Sra. Musgrove para o seu talento musical e provocava frequentemente um elogio:
- Muito bem, Anne! Muito bem! Meu Deus! Como esses seus dedinhos voam!(pág.24)

As Srtas. Musgrove e Anne: A harpa ou o piano?

- Eu já vos conto a razão - acrescentou ela. – Vim avisar-vos de que o papá e a mamãe estão muito abatidos esta noite, especialmente a mamãe; ela não deixa de pensar no pobre Richard! E concordamos que seria melhor ter a harpa, pois parece distraí-la mais do que o piano.(pág.25)

A música não poderia ter faltado na apresentação do Cap. Wentworth
...O cunhado e a irmã regressaram encantados com o seu novo conhecimento e a visita em geral. Tinha havido música, canções, conversa, riso, tudo extremamente agradável; o comandante Wentworth tinha modos encantadores, sem qualquer timidez nem reservas; pareciam ser todos velhos conhecidos, e ele viria caçar com Charles na manhã seguinte.(pág. 29)

A música, mais uma vez, como companhia para Anne
...Quando lhe foi proposto, Anne ofereceu os seus préstimos, como de costume e embora os seus olhos se enchessem por vezes de lágrimas enquanto estava ao piano, ficou muito satisfeita por estar ocupada e não desejou mais nada em troca a não ser passar despercebida.

...Foi uma festa alegre, e ninguém pareceu estar mais bem-disposto que o comandante Wentworth. Ela achou que ele tinha todos os motivos para se sentir satisfeito, nomeadamente a atenção e a deferência gerais e, principalmente, a atenção de todas as jovens.(pág.35)

Anne preferia mais tocar do que dançar

...Uma vez ela sentiu que ele estava olhando para ela observando o seu rosto transformado, tentando, talvez, ver nele os vestígios do rosto que outrora o encantara; e uma vez ela soube que ele devia ter falado nela...ele perguntara ao seu par se a Srta. Elliot nunca dançava. A resposta foi:
Oh! não, nunca, há muito que ela deixou de dançar. Ela prefere tocar. Nunca se cansa de tocar. (pág.36)


O lugar de Anne era ao piano
- Uma vez, ele falou-lhe. Ela tinha deixado o piano quando o baile terminou, e ele sentara-se a dedilhar uma ária de que desejava dar uma ideia à Sra. Musgrove. Sem pensar, ela voltou a essa parte da sala; ele viu-a e levantando-se imediatamente, disse com uma delicadeza estudada:
- Perdão, minha senhora, este é o seu lugar. E, embora ela se tivesse afastado logo com uma negativa firme, ele não voltou a sentar-se. Anne não queria que ele voltasse a olhá-la ou a falar-lhe assim. A sua delicadeza fria e a sua atitude cerimoniosa eram piores que a indiferença total.(pág. 36)
Essa passagem linda e tão "ponto chave"
na indiferença de Wentworth para com Anne,
não aparece  na versão de de 2007.

Cap. Wentworth gostava muito de música

...Era um concerto a favor de uma pessoa protegida de Lady Dalrymple. Claro que eles tinham de ir. Esperava-se que fosse um bom concerto, e o comandante Wentworth gostava muito de música. E imaginava que ficaria satisfeita se conseguisse conversar durante alguns minutos com ele; sentia-se com coragem para lhe dirigir a palavra, se a oportunidade surgisse. (pág. 88)

Que emoções poderia um momento musical trazer?

...Os outros regressaram, a sala voltou a encher-se, os lugares foram reclamados e ocupados, e ia seguir-se outra hora de prazer ou de castigo, outra hora de música para deliciar ou provocar bocejos, conforme prevalecesse o gosto real ou afetado de cada um. Para Anne, ela continha principalmente a perspectiva de uma hora de agitação. Não podia sair tranquilamente da sala sem voltar a ver o comandante Wentworth, sem trocar com ele um olhar amigável. (pág. 93)



     Vejamos pelo seguinte lado. Como seria toda essa trama sem o fundo que a Arte Musical nos dá? Desde os momentos de indiferença de Wentworth, dos Musgrove pelo fato de Anne mais tocar do que dançar, da companhia para sua solidão até o desfecho que envolve o tal encontro (desencontro) no Concerto? Sem graça total, não é? E você o que acha?

sábado, 24 de maio de 2014

A música como forma de aproximação nas obras de Jane Austen - introdução


     Muitos comentaristas observaram que em todos os seus romances, Jane Austen usou a música como um elemento de aproximação entre os casais, mas essa arte também envolvia as personagens para uma certa liberdade ou fuga de sentimentos.

    Rapidamente, como introdução, podemos analisar dois exemplos de formas diferentes: 
Anne Elliot ("Persuasão"), e Marianne Dashwood ("Razão e sensibilidade"):
 

"...na música, que ela sempre tinha usado para se sentir sozinha no mundo...". ("Persuasão")

   


"...ela passou horas inteiras ao piano alternadamente cantando e chorando...". (Razão e sensibilidade")


     Deduzimos, que
Jane, (que refletia em suas obras aquilo que sentia, provava e vivia) tinha na música (tocada ou cantada) uma grande amiga!
  Nos próximos post's, abordaremos essas ocorrências com outras personagens, até mesmo com as masculinas, que parecem menos sensíveis. (Só parecem...).


Fotos: 
janeaustensworld.wordpress.com 
austencommons.net

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Cap. Wentworth e o reencontro em Bath - (Reencontros - parte 6)

     Anne Elliot não gostava de Bath (e Jane Austen também não) e estando ali junto à família, mais especificamente com Mr. Elliot (o primo), a irmã Elizabeth e a Sra. Clay (essas duas últimas, companhias agradabilíssimas, que por certo não se importavam a mínima em estar com Anne), a cidade ficava ainda mais "pitoresca" (pra completar todas as ironias da frase). O que poderia ser mais surpreendente do que encontrar o Cap. Wentworth, além de que sob quaisquer circunstâncias, encontrá-lo sempre seria uma surpresa?
     Wentworth foi a Bath para encontrar Anne e tentar de uma vez por todas decidir o romance entre eles, mas ela jamais poderia imaginar que ele estivesse ali e muito menos suspeitava de seus planos para com ela. Esse encontro foi mesmo inesperado, pois Wentworth também não esperava encontrar Anne naquele momento. Quantos desencontros!!! Ou seria: quantos encontros!!!

      Essa cena do "guarda-chuva"...é muuuito linda!


    (...)"Chovia muito pouco, e Anne era sincera ao dizer que preferia ir a pé com o Sr. Elliot. Mas a chuva também era pouca para a Sra. Clay; ela nem a sentiria, e as suas botas eram tão grossas, muito mais grossas que as de Anne - e, em suma, a sua amabilidade tornava-a tão ansiosa por ir a pé com o Sr. Elliot como Anne, e a questão foi discutida entre elas com uma generosidade tão delicada e tão firme que os outros se viram obrigados a decidir por elas.(...) Foi, assim, decidido que a Sra. Clay faria parte do grupo que iria na carruagem; e tinham chegado a este ponto quando Anne, que estava sentada junto da janela, viu, decidida e distintamente, o comandante Wentworth descer a rua.
     O seu sobressalto foi perceptível apenas para si própria; mas sentiu de imediato que era a maior, a mais irresponsável e mais absurda tola do mundo! Durante alguns minutos, não viu nada à sua frente. Estava tudo confuso. Sentia-se perdida;(...)Voltou para trás, porém, no momento seguinte, quando o próprio comandante Wentworth entrou, no meio de um grupo de senhoras e cavalheiros, evidentemente seus conhecidos, a quem ele se devia ter juntado um pouco abaixo da Milsom Street. Ao vê-la, ele ficou mais obviamente enleado e confuso do que ela alguma vez reparara; ficou muito corado. Pela primeira vez desde que se tinham voltado a encontrar, ela sentiu que era ela quem evidenciava menos emoção. Tivera a vantagem de ter tido alguns momentos para se preparar. Todos os poderosos, ofuscantes e desconcertantes efeitos da enorme surpresa já se tinham desvanecido. Mesmo assim, porém, sentiu-se dominada pela emoção! Era um misto de agitação, dor, prazer, algo entre a alegria e a tristeza.
     Ele falou-lhe, depois afastou-se. Os seus modos denotavam embaraço. Ela não podia chamar-lhe frieza ou afeto, nem qualquer outra coisa a não ser embaraço. Depois de um pequeno intervalo, porém, ele dirigiu-se a ela e voltou a falar-lhe. Trocaram perguntas sobre assuntos habituais;(...)Devido ao fato de estarem juntos tantas vezes, eles tinham aprendido a falar um com o outro com indiferença e calma aparentes; mas agora ele não conseguia fazê-lo.(...) mas o comandante Wentworth estava embaraçado, pouco à vontade e incapaz de fingir o contrário.(...)
     A carruagem de Lady Dalrymple, cuja demora impacientava Elizabeth, aproximou-se;(...) Wentworth ficou a observá-las, depois virou-se outra vez para Anne e, pela sua atitude, mais do que por palavras, ofereceu lhe os seus préstimos.
- Muito obrigada - foi a resposta dela -, mas eu não vou com elas. A carruagem não pode levar tanta gente. Vou a pé. Prefiro andar.
- Mas está a chover.
- Oh! Muito pouco. Nada que me incomode. Após uma breve pausa, ele disse: - Embora só tenha chegado ontem, já me equipei devidamente para Bath, como vê - (apontando para um guarda-chuva novo). Gostaria que fizesse uso dele, se está decidida a ir a pé, embora eu pense que seria mais prudente deixar-me arranjar-lhe uma carruagem.
Ela agradeceu-lhe muito, mas recusou tudo, reafirmando a sua convicção de que a chuva passaria dentro em pouco, e acrescentou:
- Só estou à espera do Sr. Elliot. Estou certa de que ele deverá estar a chegar. Mal acabara de
dizer estas palavras quando o Sr. Elliot entrou."(...)
(Jane Austen - “Persuasão” – cap. VII) (http://portugues.Free-eBooks.net )

     É pra ver como são as coisas...agora que Wentworth estava mesmo decidido a ter Anne de volta,  esse reencontro nada promissor não abalou seus propósitos. Nem o primo galã, com todo o interesse por Anne, nem o fato de ela ter dispensado sua ajuda com o guarda-chuva fez com que ele se ofendesse ou desistisse. Acho que não foi só Anne que amadureceu nesses oito anos de espera...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Capitão Wentworth...o reencontro depois de tanto tempo - (Reencontros - parte 1)

   Quem não se emocionou com o esperado reencontro de "Persuasão" (Jane Austen)? O momento em que Anne Elliot revê o Cap. Wentworth depois de esperançosos e (desesperançosos) oito anos. 
  Se pudesse, ela teria evitado! Anne era consciente que depois de oito longos anos muita coisa havia mudado e apesar de ela ainda amar Wentworth, sabia que ele não havia lhe perdoado pelo rompimento do noivado e pela fraqueza de caráter; foi realmente uma situação inquietante e delicada para ela, pois apesar do medo e receio, Anne desejava demais revê-lo! 
        "Os seus olhos encontraram-se com os do comandante Wentworth; uma saudação, uma cortesia.
      Ela ouviu-lhe a voz - ele falava com Mary; disse as palavras corretas; disse algo às Meninas
Musgrove, o suficiente para indicar que estavam de boas relações; a sala parecia cheia - cheia de
pessoas e vozes mas tudo terminou passados poucos minutos.
      Charles apareceu à janela, estava tudo pronto, o visitante tinha feito uma saudação e saído; as
meninas Musgrove também se foram embora, tendo decidido subitamente ir com os caçadores até ao extremo da aldeia, a sala ficou vazia, e Anne tentou terminar o pequeno-almoço o melhor que pôde.
    -Já passou! Já passou! - repetiu para si própria, numa gratidão nervosa. - O pior já passou. Mary estava a falar, mas ela não conseguia prestar atenção. Ela vira-o. Tinham-se encontrado. Tinham voltado a estar na mesma sala!" 
(Jane Austen - "Persuasão" - cap. 7 - trad. portuguesa)

  Semelhantemente, as cenas dos filmes das adaptações feitas deste livro são muito bonitas!
    A de 1971, mostra apenas uma saudação silenciosa entre os dois. Anne parece nervosa, mas pouco demonstra:
   
    A de 2007, mostra uma Anne bastante emocionada. Gostei da cena dessa versão  pela tomada com o Cap. Wentworth bem de perto, afinal, a surpresa e a comoção no reencontro também ocorreu com ele. Dá pra ver que há certa tensão por parte dele também. 
    
     A de 1995, é para mim a que mais revela a inquietação de Anne em revê-lo. Seu olhar é muito convincente! Mostra sua surpresa e comoção. A cena de suas mãos segurando a cadeira é sem dúvida bem realista; a emoção foi mesmo intensa. Ela estava abalada, enquanto  Cap. Wentworth parece manter o controle, bem de acordo com o livro que conta que na verdade Wentworth não havia perdoado Anne e agora só pensava em ser feliz e se casar com outro alguém, então, apesar da emoção (no fundo ele não tinha encontrado alguém como Anne), tentou manter o controle emocional (os homens sempre conseguem isso melhor).
     Quando podemos demonstrar o amor por alguém que não vemos há muito tempo é tão fácil...um grande abraço, um beijo... mas tentar disfarçar um sentimento há tanto tempo contido (perante todos) não é nada fácil... Anne era sem dúvida muito resignada. 

http://portugues.free-ebooks.net/tos.html

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

As belas madeixas do tempo de Jane Austen - Cuidando da beleza no séc. XIX - parte final


Ainda no século XVIII
     Acredite: Cabelos no séc. XVIII eram sinônimo de "obra de arte", daquelas dignas de museu, com verdadeiras esculturas:
     Maria Antonieta era a grande "lançadora de moda" e a corte francesa juntamente com o resto da Europa, copiava. 

     Eram utilizadas armações e enchimentos para dar sustentação ao penteado que depois era salpicado de talco ou farinha (mais comum) para dar o efeito branco.
Convenhamos que foi um século de exageros, mas a moda dos cabelos era realmente de tirar o fôlego, principalmente com os possíveis acidentes que poderiam ocorrer em virtude desse "requinte":
Cabeleira pegando fogo.
Tão altos eram os penteados que corriam
o risco de serem incendiados pelas velas dos lustres.
O século XIX, um pouco mais modesto;

      Dos cuidados com os cabelos no início do século XIX, (xampu, condicionadores, cremes, máscaras, como temos atualmente) pouco se sabe.    
      Não se menciona uma receita para  shampoo ou similar. O que se conclui, é que o próprio sabão utilizado para o banho poderia ser utilizado nos cabelos, mas isso não era tão comum: o que se pode afirmar, é que os cabelos eram lavados com uma frequência bem menor do que é hoje em dia, e mesmo assim muitas vezes apenas com água, sem sabonete.

     Jane Austen, como toda mulher, também admirava os cabelos de outras e por certo devia também cuidar do seu. Aqui, dois trechos de cartas em que ela escreve sobre os cabelos das conhecidas:


"I cannot anyhow continue to find people agreeable; I respect Mrs. Chamberlayne for doing her hair well, but cannot feel a more tender sentiment" – Jane Austen, 1801

"Eu não posso de maneira alguma continuar encontrando pessoas agradáveis. Eu respeito a 
Sra. Chamberlayne por fazer seu cabelo muito bem, mas não posso ter um sentimento mais terno."


"She looks very well, and her hair is done up with an elegance to do credit to any education." – Jane Austen, 1813

"Ela parece muito bem e seu cabelo é feito até com uma elegância de fazer crédito a qualquer educação."

(Fiz uma tradução livre, se alguém tiver uma melhor, fique livre para comentar, agradeço)

     
     Vale lembrar que até o início do século XX, poucas pessoas tinham acesso aos sabonetes "de loja", a maioria se utilizava dos sabões caseiros que eram ainda mais agressivos que os atuais sabões em pedra.
    Imagine tratar das madeixas com tal produto! Precisava ser bem "valente"!!! 
      Dessa forma, para que a oleosidade natural fosse preservada e se pudesse conservar um cabelo macio e brilhante, alguns ficavam um ano ou até mais tempo sem passar sabão ou sabonete nos cabelos, que depois de algumas semanas de "adaptação", ficava muito macio e brilhante mas com certeza ainda com muita oleosidade. 
     O "aroma", (se é que se era percebido em uma época que era avessa à higiene) podia ser "encoberto" com perfume.

      O que tornava ainda mais complicado os cuidados com os cabelos, era que as mulheres mantinham seus cabelos compridos, quando não, muito compridos, (Laura Ingalls Wilder, escritora americana, nascida em 1867, tinha os cabelos até o calcanhar). 
Martha Matilda Harper,
americana que nasceu no séc, XIX
e que foi a primeira a montar
um salão de beleza público.
     Cabelos soltos ou até com tranças soltas, eram para as meninas pequenas (estar com os cabelos soltos era como estar "muito a vontade" e mostrava uma certa intimidade da mulher),
Elizabeth e Jane Bennet -
"Orgulho e Preconceito" - 1995
as moças e senhoras tinham por hábito ter os cabelos presos, o que abafava ainda mais o couro cabeludo, sem contar que ainda protegiam a cabeça com chapéus, era de fato algo para se pensar...
Produto para tonificar os cabelos,
formulado por Martha Matilda Harper
     Pensando bem, não era nada, nada, nada fácil lavar os cabelos sem água encanada, no frio inglês (ou europeu, ou americano), ter que ficar com os cabelos (compridos) soltos até secarem... realmente não era uma tarefa das mais fáceis. 
Jane Bennet secando os cabelos junto
 à lareira - "Orgulho e Preconceito" - 1995
    Sendo assim, venhamos que aquela coisa de cabelos ajeitadinhos, soltos, cheio de brilho, balanço, é coisa de filme, acho mesmo que a coisa estava mais para o cabelo de Anne Elliot na versão de 2007 de “Persuasão”. Seria gel, óleo perfumado ou falta de água???
     Mas sempre havia alguém para mostrar uma solução! Na Enciclopédia de Dick de Receitas práticas e processos (William Dick, já em 1858), recomenda-se um processo de secagem de cabelos que parece perfeito (para incendiários). Ele explica que a mulher deve deitar-se em um sofá, com seu cabelo caindo sobre uma das extremidades  e colocar debaixo do cabelo uma panela queimando pedaços de carvão vegetal polvilhado com pó de benjoim (seiva de árvores secas perfumadas do Sudeste Asiático). A fumaça secará os cabelos e eles terão um agradável perfume. (Se não for cheiro de queimado, digo, de cabelo queimado).
     O primeiro secador de cabelos só veio bem depois, em 1890.
    Os penteados e acessórios camuflavam a oleosidade e um perfuminho era sempre bem vindo.


Alguns anúncios publicados em livros de arte e beleza da época:
La Belle Assemblee 1807

Repository of Arts 1818
Óleo de Palma Christi (para espessamento do cabelo)
  • uma onça de óleo de Palma Christi
  • óleo de bergamota em quantidade suficiente
  • lavanda para perfumar
Aplicar de manhã e à noite ou quanto se fizer necessário para os que querem ver o cabelo crescer espesso e luxuriante.
O óleo de Palma Christi é muito utilizado para o espessamento do cabelo nas Índias Ocidentais.


Grecian  Water – (para escurecer o cabelo)

  • duas dracmas de nitrato de prata
  • seis onças de água destilada
  • duas dracmas perfume com qualquer essência que você escolher. 

Para escurecer barba, cabelo ou bigode:
O cabelo , barba ou bigode pode tornar-se negro com a seguinte composição:

  • uma onça de óleo de costus
  • uma onça de murta
Misture em um recipiente de chumbo; adicione:

  • meia onça de breu líquido
  • meia onça de suco de folhas de nogueira
  • meia onça de láudano
  • uma dracma de nozes
  • uma dracma de chumbo
  • uma dracma de incenso
  • uma quantidade suficiente de mucilagem de goma arábica. 
Utilizar três vezes por dia.
Dissolver e molhar o cabelo que você deseja pintar de preto. É perigoso se aplicado na pele.
Óleo de Costus, utilizado na mistura acima
O óxido do ferro era um ingrediente de um “shampoo” para escurecer cabelo (ou "lavagem", como era chamado na época).

Hovey's Cocoa Glycerine
para o cuidado com os cabelos
     Muitos estudiosos têm tratado das cores para tingir o cabelo e as sobrancelhas. Em primeiro lugar: se atualmente, já é questionado sobre os ingredientes das modernas tinturas para cabelos, imagine como era há 200 anos!!! O primeiro, é a solução de prata, conhecida sob diferentes nomes, tais como lavagem chinesa , líquido egípcio, etc . Foi observado que após o uso dessas soluções, as pessoas aparentavam um estado de frenesi(?!?!). Devia se proteger também contra composições em que meimendro (certa planta), morel (cogumelo), leite de cardo, além de outras plantas venenosas eram utilizados, bem como aqueles em que água forte ou arsênico eram ingredientes. 
Óleo Macassar de Rowland
   Temos ainda várias formulas infalíveis (e perigosas):

Fórmula 1:
Ferva nozes  no azeite até que eles se tornem moles. Depois de secas, moa em um pó fino , que deve ser incorporada com partes iguais de carvão de salgueiro, e sal comum. Adicionar uma pequena quantidade de casca de laranja e de limão , seca e moída. Ferver com água até que o sedimento do fundo do recipiente tenha a consistência de uma pomada preta.
O cabelo deve receber  esta preparação, cobrindo-o até secar. Depois, pentear (acho que não era lavado, o pó preto era o que disfarçava os fios brancos). Diziam ser excelente para a coloração do cabelo preto e que deveria ser usado uma vez por semana, para impedir que mais tarde ficasse vermelho e também para cobrir as raízes.

Fórmula 2:
Ferva um grama de minério de chumbo
A mesma quantidade de fichas de ébano por uma hora, em um litro de água limpa.
Lave o cabelo com esta tintura, e mergulhe o pente nela antes de usá-lo.
A composição transforma o cabelo preto, mas a cor se torna mais viva, brilhante e bonita, com a adição de duas dracmas de cânfora.

Fórmula 3:
Os cabelos podiam também ser transformados em pretos com diferentes substâncias vegetais cozidas no vinho. Devia-se lavar a cabeça várias vezes por dia,  mas esta operação devia ter continuidade durante algum tempo.
As substâncias normalmente preferidas para este fim eram: sal da amora, murta, figo, senna, framboesa, medronheiros, alcachofra, as raízes da árvore de alcaparra, a casca de noz e romã, casca de nozes, shumac, peles de feijão, nozes  e cones de cipreste . É também necessário usar um pente de chumbo.


Fórmula 4:
Os meios simples de produzir, os mesmos efeitos, são os seguintes:
Folhas da videira selvagem (também evita queda de cabelo), cortiça queimada, raízes da azinheira e árvore de alcaparra; cascas de salgueiro, nogueira e romã, folhas de alcachofra, amoreira, figueira, framboesa conchas de feijão, fel, nozes de ciprestes, folhas de murta, cascas de nozes verdes, vagem de hera, berbigão, beterraba, flores de papoula, alume, e a maioria dos preparados de chumbo. Estes ingredientes podem ser cozidos em água de chuva , vinho ou vinagre, com a adição de algumas plantas, como sálvia, manjerona, erva-cidreira, cravo, louro, etc

Para pintar o cabelo de castanho.
O cabelo é deve ser previamente limpo com farelo seco (???), ou a água quente, no qual foi dissolvido alúmen. Em seguida misturar:
  • duas onças de cal vivo 
  • uma onça de litharge de ouro
  • meio grama de minério de chumbo 
Reduzir tudo a pó, e peneirar. Umedeça uma pequena quantidade desse pó com água de rosas, esfregue o cabelo com ele e deixe secar ao ar livre, ou com panos quentes. Este pó não mancha a pele.
Afirmava-se que os cabelos podiam ser pintados de preto impregnando-os com banha de porco, misturada com  mínio e cal , mas esta composição na verdade, produziria apenas uma cor castanha.

Miss Harriet e Elizabeth Binney - 1806
     Os cabelos das senhoritas acima parecem muito bonitos e sedosos, mas... viver naquele tempo parece não ser tão "encantador" assim... é, não se pode ter tudo! E vocês? O que pensam?